Sobre a peça

Texto: Marcos Paulo Moreira

Direção: Marcos Paulo Moreira

Elenco: Atriz Convidada: Giovana Adolpho

Teatro distopia épica com desconto

“O Terceiro Canto do Galo” é um texto teatral sem precedentes justamente por se propor a distorcer o que nos precede, não apenas ante o que se acredita ser histórico, mas no que se crê ser a verdade que nos principia. Deste modo o gênero dramatúrgico estabelecido pelo próprio autor leva o nome de “distopia épica”, pois, uma vez que no âmbito do que é distópico estamos acostumados à imagem de um futuro caricaturizado – como apreciamos em obras de George Orwell, Audous Huxley e mais recentemente em “Black Mirror” – uma trama que sustententa as bases da distopia, mas que se localiza cronologicamente num passado milenar, não poderia se enquadrar na mesma categoria. “Épico”, este foi o sub-rótulo a que decidimos tipificá-la.

O espetáculo encena uma versão histórica fictícia que responde a uma indagação primordial. O que haveria acontecido se Jesus Cristo não houvesse ressussitado? Deste contexto polêmico surge o enigmático título, não do terceiro dia da ressurreição, observem, mas de uma outra passagem bíblica que reitera a trindade do mito cristão: “Antes que o galo cante, três vezes tú me negarás”. Deste trecho do evangelho e desta fala de Jesus para seu fiel apóstolo desdobram-se os conflitos que assombram o nosso protagonista, Simão Pedro, O Pescador de Homens, considerado o discípulo favorito e o primeiro papa da igreja católica.

A história se passa na casa de Pedro (Thiago Azanha), aos pés do Monte das Oliveiras, quarenta dias depois da crucificação de Cristo nesta realidade onde Ele não ressuscitou. Na casa vivem também Judite (Gizelly Adolpho), a sombria e ciumenta esposa de Pedro, e Maria Madalena (Thaynara Azevedo), acolhida por Simão depois da morte do Nazareno, amaldiçoada por uma misteriosa doença nas vistas. O luto, a fé e o ciúmes são as chamas que incandescem a relação desse triângulo. Afora isto, um quarto personagem adiciona ainda mais tensão à trama: Judas Escariotes (Marcos Paulo), um falso suicida escondido no porão. São quatro personagens com dramas pessoais extremamente delicados se degladiando em cena para conquistar a devoção do público. A platéia é um conciliábulo de purga e é convidada a julgar os próprios ícones religiosos sob o um olhar do futuro.

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