Sobre a peça
Texto: AlejandraGuibert e Roberto Cordovani
Direção: Roberto Cordovani
Elenco: Roberto Cordovani, Ruben Gabira e Custódio Jr.
Teatro Drama com desconto
Em 1940, no mesmo período em que é indicada pela segunda vez ao Oscar pela comédia 'Ninotchka', a atriz Greta Garbo desaparece dos olhos da mídia e dos poderosos da produtora de filmes Metro-Goldwyn-Mayer. Paralelamente a isso, um ator, vivido por Roberto Cordovani, faz numa casa noturna apresentações como a artista, porém de uma maneira como Hollywood nunca a descreveu ou autorizou fazer. Durante esse tempo desaparecida, surgem especulações sobre Garbo ser, na verdade, um homem e que estava servindo ao exército durante a Segunda Guerra Mundial. Numa noite, enquanto fazia papéis mais ambíguos da atriz, um fotógrafo freelancer (Custódio Jr) começa a fotografar a apresentação e suspeita que o ator seja a própria Garbo. Durante o espetáculo, um jogo de imagens e intenções, o fotógrafo e o Crossdresser (Ruben Gabira) amigo do ator e que também suspeita dele ser Garbo vão entrando, junto ao público, numa temática de possibilidades para tentar descobrir se Greta é ou não esse ator.
"Custódio Jr interpreta Jorge, fotógrafo que vai tentar desvendar o mistério se eu sou a Garbo ou um ator que se passa por ela, ou a imita, fica assim uma coisa nebulosa. Já o Ruben Gabira, que fez também a temporada de 2021, foi protagonista de “Priscilla, Rainha do Deserto”, em 2012, e esteve na novela 'Novo Mundo', onde interpretei o vilão, além disso, trabalhou durante muitos anos com Cláudia Raia. Na peça ele faz o crossdresser Jane Suset. Acho que aí é um duelo de interpretações, que é um trio, quer dizer, é um duelo eu e o Rubinho, mas é um trio bastante homogêneo. Eu, Ruben Gabira e Custódio Jr", ressalta Roberto sobre os seus parceiros de cena.
Outro ponto importante do espetáculo, que Cordovani faz questão de falar, é ser político que Greta foi.
“O que eu guardo dela é a sua masculinidade. É paradoxal, mas ao interpretar Greta Garbo eu aprendi que ser masculino também pode ser feminino, porque na delicadeza ou na fragilidade, às vezes está a força. É paradoxal, né? Então ela, para mim, é um exemplo de masculinidade no corpo de um ser andrógeno.É um espetáculo que fala sobre androgenia. O que é mais marcante é essa Garbo homem-mulher, reservada, ativista político de esquerda, que quis realmente fazer muito pela humanidade, em termos de liberdade de expressão, de opção política. Ela foi perseguida por ser comunista, por ser homossexual, por ser livre, por ser uma mulher atemporal. Para mim, isso é o que mais me empolga e por isso que é um espetáculo de 'hoje', não tem nada de ficção. Eu digo de hoje porque todo mundo vai se identificar”, reafirma.
A ideia de criar o espetáculo surgiu da dificuldade na produção de outra peça, a adaptação de “Memórias de Adriano”, da escritora francesa Marguerite Yourcenar. Com problemas na parte de direitos autorais da obra, Roberto passou a se debruçar na temática de mitos. Foi a partir de uma ida a livraria de Galícia, Espanha, que tudo tomou forma.
“Falei para a atendente que ela indicasse livros sobre mitos, sobre a desmontagem do mito, como ele pode muitas vezes se desmistificar, e percorri alguns autores como Roland Bartes, Michel Foucault. Estava a ponto de comprar alguns livros quando uma funcionária dessa mesma livraria, colocando uns livros na prateleira, deixa cair uns três livros, e eu, gentilmente, fui devolvê-los, um deles chamava “O Mito”, de um autor chamado Robert Payne, e tinha na capa Greta Garbo. Ali, parece que houve um dejavu, assim, eu já sabia que naquele momento eu iria ser Greta”, conta o ator.
Ao tratar de mitos, Cordovani explica relacionar esse conceito à “problemática das imagens nas relações” e ao quanto a imagem fica “nebulosa” em decorrência da realidade. “Essa questão é muito o que acontece hoje em dia nas redes sociais. A maioria mente, a maioria usa filtro, a maioria vende uma felicidade que não existe, vende, enfim, soluções práticas que depois na prática não é nada disso. Então, ‘Olhares de Perfil' veio com esse intuito de falarmos sobre relacionamento, já que eu não pude falar sobre o relacionamento do Imperador Adriano com o escravo Antínoem ‘Memórias de Adriano", completa.
Ao falar de qual mensagem a peça quer passar, o artista diz que “Olhares de Perfil” é sobre talvez desacreditar das intenções da maioria das pessoas.
“Há muito oportunismo, muita fantasia, muita projeção daquilo que nós gostaríamos que o outro fosse, e o outro, às vezes, sem saber, logicamente, nunca vai corresponder à nossa expectativa. Eu acho que a peça fala exatamente do que nós vivemos hoje, online, dos mundos paralelos, o que é real e o que não é, o que é fake e o que é verdade. Então, falamos de relações frágeis, de relações quebradas, já desde o início, pessoas solitárias, pessoas que não querem conviver com a realidade, que creem que o glamour muitas vezes é a estrutura de muita coisa, e muito pelo contrário, é um caos", explica.
O ator conta que, muito além do sucesso pelo exterior, o ponto de importância foi a visibilidade do setor cultural brasileiro que “Olhares de Perfil” levou ao público europeu.
“A Garbo foi um divisor de águas. Foi um chamamento para a questão do teatro comportamentalista na Europa, porque eles tinham uma ideia do Brasil, naquela época, final dos anos 80 e meados de 90, muito diferente da ideia que eles têm hoje, mesmo porque com toda essa questão de online, de internet, tudo ficou muito mais explícito. As pessoas sabem o que acontece no Brasil. Naquela época se falava de futebol, de música, de carnaval, mas não se falava tanto de um teatro comportamentalista. Então isso pra mim é importante ressaltar, porque mais do que o prêmio, é a celebração da língua brasileira, da língua portuguesa do Brasil. Isso pra mim é o grande trunfo”, finaliza.